Acelga, abobrinhas e abacate: sobre a alimentação das crianças


Tenho pensado muito sobre a alimentação das crianças. Meus dois filhos tem perfis bem diferente um do outro, embora tenham a mesma comida na mesa.

Vamos por partes:

Em primeiro lugar admito que minha situação é muito diferente da grande maioria. Moro em uma chácara onde plantamos legumes e verduras, e eles estão presentes na minha geladeira em abundância. Repolho, acelga e couve flor se multiplicam na gaveta. Eles estão sempre presentes na mesa e por consequencia as crianças tem muita familiaridade com eles. O Pedro adora acelga refogada, acho isto quase bizarro. Ele nem sabe disto, às vezes, quando falo que ele adora acelga ele me olha assustado perguntando o que é acelga. Dois dias atrás me sai com esta durante o jantar:

– Hoje não tem verdura?

Olhei para mesa e havia uma travessa de alface, mas nada refogado.

As abobrinhas são as grandes vedetes lá de casa. O Pedro e a Luiza amam abobrinha. Quando vou viajar e não sei que tipo de comida vou encontrar no lugar, levo sempre um pacote de miojo e outro de abobrinhas. Sei que, com estes dois itens, eles estarão alimentados.

Como a produção da horta é caseira, ela é bem sazonal. Na época de repolho, tem muito repolho. Depois acaba. Dai vem o brócolis, depois a alcachofra, e assim por diante. Com a geada, as vezes não tem nada. Dai precisamos recorrer ao supermercado.

Com as frutas é um pouco diferente. Temos poucas frutas, tanto em variedade quanto em quantidade. Os moranguinhos são pequenos, feinho, mas bem doces, e duram pouco tempo, dividimos a produção com os passarinhos. As vezes tem mexirica (mimosa, tangerina, nem lembro qual o nome que se usa no resto do Brasil), pêssego, uva. Quando a produção é grande, vira suco, compota e geléia. Todo dia tem suco de fruta fresca lá em casa e isto dá bastante trabalho. Na maior parte do ano, alguma fruta está barata no mercado, dai compramos está em quantidade. O preferido de todos os tempos é o de poncan (a mexirica grande) que quando está barata, é muito barata. Mas pode ser de melão, morango, laranja, melancia (também faz sucesso), nenhum destes é da chácara. Quando a fruteira está vazia, o suco é de limão do limoeiro que plantamos no jardim.

Então é isto, as crianças comem super bem, comem de tudo, fácil assim?

Não, nunca é, né? O Pedro come de tudo, mas come pouco e bem devagar, quase parando. Só começou a comer sozinho há pouco tempo e mesmo assim passo a refeição de olho no garfo dele (que geralmente está descansando do lado do prato). E se você oferece alguma coisa ele SEMPRE, 100% das vezes diz:

– Não.

Por exemplo:

– Quer feijão no arroz?

– Não.

– Quer acelga?

– Não?

– Quer banana?

– Não.

Então nunca pergunto. Simplesmente sirvo e digo:

– Coma.

E ele come. Devagar, mas come. Coloco pouco no prato para não assustar. Se for o caso, repito. Obrigo a comer mesmo. Raspar o prato. Bem ditadora. Senão, por ele, ele não comia. Vivia de vento. E vou aos poucos. Ele ainda não come alface, por exemplo, só aquelas folhinhas bem novinhas, do miolinho. E sem tempero. Começou a comer pão integral e gostar de cebola recentemente.

E a Luiza? Ela é um mini caso a parte. É bem mais comilona. Prato preferido: arroz e feijão. Ela é mais lariquenta. Descobre Sonho de Valsa numa gaveta perdida. Quando a gente vê, está toda lambuzada. Come com os olhos. Seus olhos brilham quando vê a mesa de brigadeiro de uma festa de aniversário. Mas dá uma mordida e fala que não quer mais. Diz não com menos frequencia que o Pedro em situações diferentes. Sempre que vou buscá-la na escola ela pergunta:

– O que você tem para mim?

As vezes levo um suco, as vezes uma bolacha. Outro dia levei uvas. Ela ficou braba. Começou a chorar, reclamar. Eu falei:

– Você gosta de uva, está cansada e por isto está reclamando. Mas se você não quiser, não coma.

Continuei dirigindo. Daí peguei um grão e ofereci para ela. Ela aceitou. Comeu e disse:

– Gostei. Tem mais?

Alguns truque são herdados da minha infância. O caso clássico é do abacate: os dois AMAM abacate, porque na casa dos meus pais ele é servido batido com leite e vem com granulado de brigadeiro em cima. Delícia ne?

Enfim, como tudo relacionado a filhos, dá trabalho, mas também é gostoso. Cozinhamos muito juntos nos fim de semana, brigamos na hora do almoço por causa da correria. Faço concessões quando acho que vale a pena (como o cereal colorido que torna mais fácil o hábito do café da manhã) e sou general quando acho que devo ser.

So far, so good.

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7 comments on “Acelga, abobrinhas e abacate: sobre a alimentação das crianças

  1. Adorei o post. Outra coisa que acho importante: tentar nao “esconder” a comida no prato. Desde pequeno meu filho pergunta “o que e’ isso” e eu digo: cebola, xuxu, abobrinha. Vale inventar nomes divertidos, como brolino ao inves de brocolis, ou inventar brincadeiras, como escutar o barulhinho da cebola quando a gente morde. Meu filho esta com quase 5 anos e ainda come de tudo, embora as vezes enrole um pouco, como o seu Pedro. Tambem sou a favor de nao perguntar demais o que quer comer. Sirvo e pronto. Quando ele diz que nao quer algo que esta no prato eu digo “entao nao come, deixe ai” e na distracao ele acaba comendo e pronto. Tambem acho melhor colocar pouca comida e, se for o caso colocar mais. Eles aprender a raspar o prato e, principalmente, a nao desperdicar.

  2. sou assim,tirando a parte das plantações, da terra do verde e tals.
    isaac nasceu e já fazia bom tempo que o cardápio em casa era o seguinte: arros, grão, legume, verduras e carne/peixe.
    e ele adora.
    qdo falta um dos itens reclama.
    odeia refrigerante, não ve graça, diz que é coisa de gente grande.
    toma suco e adora. de frutas e de caixinha, sem preconceito.
    adora um biscoitinho integral e torce o nariz para doces.
    não sei de onde aprendeu isso, já que sou formiga assumida.
    tudo é exemplo.
    acho.
    ms tbm sou general e largadona sem problemas.
    e vivamos assim…
    bjocas

  3. Oi Pati
    Gostei mto do post, sincero e honesto. A alimentação é mesmo uma preocupação grande. Todo o dia descubro algo que não faz bem (toddyinho, oleo de canola, etc). Mas não dá pra enlouquecer, não é? Uma vez dei uma pequena palestra para meio dúzia de pessoas. O tema era publicidade + alimentação infantil. Minha conclusão é que a gente (pais) pode e deve fantasiar (como nas propagandas) os alimentos saudáveis para os filhos, como o “leitinho rosa da Lola” , o espinafre do Popey,… O teu abacate brigadeiro é genial! E qto a tua horta caseira… inveja!
    beijos
    Alexandra

  4. Aqui em casa a mesma coisa: tem dias que são melhores, outros piores. Uma ama arroz e feijão, outra só come macarrão. Mas vamos levando.
    Agora essa horta em casa deve ser um super incentivo para as crianças, pq qdo eles participam do processo – nem que seja vendo as verduras/frutas/legumes crescerem – já fica bem mais divertido.
    Pati, e nas viagens, eles são abertos a novos sabores? Vc cozinha ou costuma ir a restôs c/ eles?
    Bjo
    Pri

  5. Pati, adorei o texto.. Eu estou começando a sentir certa dificuldade na alimentação das crianças. Até outro dia comiam tudinho que colocávamos no prato e agora estão mostrando seus gostos. Acho que é assim mesmo né. E essa horta em casa. Delicia!
    Bjs

  6. Aqui não sou muito “generala” não! hahaha
    Até pq ele tá numa fase de não querer comer muita coisa mesmo. Num dia só come o feijão, no outro só o arroz, no outro só os legumes.. tem dia que raspa o parto, tem dias que nem prova..
    A única coisa que ele reclama qndo falta é quiabo refogado com muito tomate, alho e cebola! Gosta mesmo!
    E gosta de todas as bobeiras que as crianças geralmente gostam.. ama chocolate, suco.. e muitas vezes ele chega aqui com bombons e pirulitos que ganha no mercadinho, na padaria, na banca, mas nem me estresso! hahaha

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